MENSAGEM de Fernando Pessoa- Primeira Parte: BRAZÃO
II- OS CASTELLOS  
Primeiro- ULYSSES  
.Ouça aqui o poema (para estudantes de português) Ilustração de Carlos Alberto Santos
ULYSSES
O mytho o nada que tudo.
O mesmo sol que abre os cus
É um mytho brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

 

Este, que aqui aportou,
Foi por no ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por no ter vindo foi vindo
E nos creou.

 

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

Comentários:

"O mito é o nada que é tudo"- esta frase exprime a ideia que Fernando Pessoa tinha dos mitos como potenciais motores sociológicos. Mesmo se falso (isto é, mesmo que não seja nada) um mito tem o potencial de provocar comportamentos sociais e, portanto, facilitar a evolução de uma nação segundo determinados vectores.

"O mesmo sol que abre os céus...etc"- provável referência aos deuses solares (ou mitos afins) que todos os dias eram supostos renascer à alvorada, depois de terem "morrido" no poente anterior.

"Este que aqui aportou"- referência a Ulisses, herói lendário da Odisseia e fundador mítico de Lisboa, onde teria aportado numa das suas navegações ("Lisboa" deriva de Olisippo e Ulixbona- em cuja raiz alguns creem ver o nome de Ulisses ou Odisseus).

"Foi por não ser existindo"- porque não era, foi existindo; foi-se insinuando na nossa realidade.

"a fecundá-la decorre"- a lenda tem uma interacção positiva com a realidade; "A vida, metade de nada, morre"- a vida por si só nada vale porque logo desaparece (mas o mito persiste!).

..Ouça aqui o poema (para estudantes de português) .
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Lisboa, Portugal. Agosto 31, 2003
 
Revisto Janeiro 13, 2004
...ou visitar a minha home-page
João Manuel Mimoso
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English version

An introduction to the poem: Ulysses, the mythic hero of the Odyssey, is said to have sailed into the Atlantic and landed where Lisbon is today. And from his name derived the name of the town he then founded (Lisbon was once called Ulixbona). So, although Ulysses never existed except as a myth, Fernando Pessoa reasons that he is one of the pillars of the Portuguese nation (one of the castles in its coat of arms) and in this poem he muses on the importance of myths.

In the opening part of the poem he refers the myths of solar gods who die at sunset only to reincarnate at dawn in the Sun itself. The poem closes with the thought that, compared to the everlasting quality of myths, life in its fragility is indeed of little value... This thought calls to memory that Pessoa once said of himself "I want to be a maker of myths".

Ulysses

Myth is the nought that means all.
The very sun that opens up the sky
Is a bright and silent myth-
The dead embodiment of God
Alive and naked.

 

This one who called here at port,
Found existence in not being.
Without being he sufficed us.
Because he did not come, he came about
And created us.

 

And so does legend flow
Across the threshold of reality
And enriching it, runs forth.
Down below, life, half
Of nothing, dies away.

 

NOTA: Ver AQUI a tradução de 1997 do Prof. Mike Harland (que eu li antes de produzir a versão acima).